A VIDA NO MAR TÁ ENROSCADA

Encontrar uma baleia presa em rede de pesca é uma das piores sensações que vivi esse ano

22/08/21

Por: Marina Leite

Net, "rede" em inglês, nome dado à baleia enroscada durante a Expedição SHE, no Rio de Janeiro, em julho de 2021.

No início de julho deste ano, deixei o porto de Paraty, no Rio de Janeiro, para uma expedição científica com a equipe do VIVA Instituto Verde Azul da qual faço parte. Nós pesquisadores queremos entender mais sobre a rota migratória da baleia-jubarte.


E nessa época é uma festa. Tem muitas delas pela costa brasileira, e em 8 dias à bordo do veleiro SHE contabilizamos 112 jubartes. Foi de tirar o fôlego de tanta emoção! Para o bem e para o mal.


Na manhã do dia 12, avistamos a primeira jubarte do dia. “Mais um encontro”, comemoramos. Até perceber que ela estava enroscada em um emaranhado de cabos e boias ao redor do corpo. Um deles envolvia a boca. Além de ter dificuldade para se movimentar, provavelmente a baleia estava sem comer!

Tentei entrar em contato com todas as pessoas que poderiam ajudar a desemalhar essa baleia. É perigoso e exige treinamento específico.


Ligamos para a (única) equipe responsável por realizar essa tarefa no Brasil. Estava longe em outro resgate. Chamamos órgãos públicos, pesquisadores, defesa civil, bombeiros…

Recebemos ajuda, mas frente-a-frente com uma baleia não dá para improvisar.


Acompanhamos a Net - a batizamos de “Rede” em inglês - até perdê-la de vista, ao escurecer. Suspeitamos que entrou para a estatística recorde de baleias mortas no Brasil este ano. Até aqui agosto de 2021, mais de 130.


A sensação de impotência e vazio tomou conta de mim. Tomou conta da toda tripulação naquela noite. Esse episódio me deu ainda mais força para buscar soluções para esse tipo de situação cada vez mais frequente.


Uma estimativa da IWC - International Whaling Commission diz que 300.000 baleias e golfinhos morrem por ano, presos em petrechos de pesca.


É urgente mudarmos esse cenário!

Marina Leite

Bióloga do VIVA Instituto Verde Azul e apaixonada pelo mar. Escreve mensalmente no "E aí, bicho?" sobre os encontros com baleias, golfinhos e cia.